Dra. Carolina Sapia

Tratamento da obesidade

Tirzepatida no tratamento da apneia do sono: o que a ciência mostra

Entenda a relação entre obesidade, apneia obstrutiva do sono e como o emagrecimento com tirzepatida pode reduzir eventos respiratórios e melhorar a qualidade do sono.

JULHO DE 2026

Tirzepatida no tratamento da apneia do sono: o que a ciência mostra

A apneia obstrutiva do sono (AOS) é uma condição caracterizada por pausas repetidas na respiração durante o sono, causadas pelo colapso da via aérea superior. O principal sintoma é o ronco alto e interrompido, mas o impacto vai muito além: sonolência diurna, dificuldade de concentração, hipertensão resistente, arritmias, maior risco de acidentes e alterações metabólicas. Estima-se que cerca de 1 bilhão de adultos no mundo tenham AOS, e a grande maioria dos casos moderados a graves permanece sem diagnóstico.

Por que apneia do sono e obesidade andam juntas

Existe uma relação bidirecional e bem documentada entre obesidade e apneia do sono. O excesso de gordura, especialmente na região do pescoço, língua e abdome, aumenta a pressão sobre a faringe e reduz o tamanho do lúmen da via aérea. A obesidade abdominal eleva a pressão intratorácica e prejudica a função diafragmática, piorando ainda mais o colapso noturno. Dados do Wisconsin Sleep Cohort mostraram que um aumento de 10% no peso corporal aumenta em seis vezes o risco de desenvolver AOS moderada a grave.

Ao mesmo tempo, a apneia do sono contribui para o ganho de peso. Fragmentar o sono reduz os níveis de leptina (hormônio da saciedade) e aumenta a grelina (hormônio da fome), desregulando o apetite. A ativação do sistema nervoso simpático e o estresse oxidativo causados pelas apneias pioram a resistência à insulina, favorecendo o acúmulo de gordura visceral. O resultado é um ciclo vicioso: mais peso piora a apneia, e a apneia piora o metabolismo.

Emagrecer melhora a apneia do sono

A perda de peso é considerada uma das estratégias centrais no tratamento da AOS, especialmente em pessoas com obesidade. Estudos mostram que reduzir 10% a 15% do peso corporal já diminui significativamente o índice de apneia-hipopneia (IAH), que mede a quantidade de eventos respiratórios por hora de sono. A perda de gordura na língua parece ser particularmente importante: pesquisadores da Universidade da Pensilvânia demonstraram que a redução do volume lingual está diretamente relacionada à melhora do IAH.

A cirurgia bariátrica, por exemplo, costuma reduzir o IAH em 30% a 50%, embora nem sempre cure completamente a apneia — especialmente em casos longos e em pacientes com mudanças estruturais na via aérea. Por isso, a abordagem ideal frequentemente combina perda de peso com outras medidas, como CPAP (pressão positiva contínua), mudanças de posição de dormir e, quando indicado, tratamento odontológico ou cirúrgico.

O estudo SURMOUNT-OSA e os dados da tirzepatida

O estudo clínico mais esperado nessa área é o SURMOUNT-OSA, conduzido pela Eli Lilly e publicado no New England Journal of Medicine em 2024. O estudo incluiu adultos com obesidade e apneia obstrutiva do sono diagnosticada, divididos entre os que não usavam CPAP e os que usavam CPAP de forma regular. Todos receberam tirzepatida em doses que subiram até 15 mg semanal ou placebo, durante 52 semanas.

Os resultados foram expressivos. Nos participantes que não usavam CPAP, a tirzepatida reduziu o IAH em 55% em comparação com o placebo. Já nos que faziam uso de CPAP, a redução foi de 50% — o que significa menos de metade dos eventos de apneia e hipopneia por hora de sono. Além disso, a perda média de peso foi de 18% do peso corporal, e houve melhora de marcadores metabólicos, pressão arterial, qualidade de vida e sonolência diurna.

Esses dados colocam a tirzepatida em uma posição nova: não apenas como medicação antiobesidade, mas como terapia com potencial de reduzir a carga da doença em pacientes com AOS. Vale lembrar, porém, que a melhora foi substancial, mas não universal: parte dos pacientes ainda necessitou de CPAP ou de outras intervenções. A apneia do sono não é apenas uma consequência do peso; fatores anatômicos, neuromusculares e de posição de sono também participam.

Como a tirzepatida age nesse cenário

A tirzepatida é um duplo agonista dos receptores de GIP e GLP-1. Esse mecanismo reduz o apetite, prolonga a saciedade, retarda o esvaziamento gástrico e melhora a sensibilidade à insulina. O resultado clínico é uma perda de peso relevante e sustentada, com redução da gordura visceral, hepática e, importante para a AOS, da gordura localizada na região de língua e pescoço. A redução de peso também diminui a inflamação de baixo grau e melhora a função cardiovascular, que são frequentemente comprometidas na apneia do sono.

  • Redução da gordura visceral e da gordura ao redor da via aérea superior.
  • Melhora da sensibilidade à insulina e do controle glicêmico.
  • Redução da inflamação sistêmica e do estresse oxidativo.
  • Melhora da pressão arterial e da função vascular.
  • Possível redução da sonolência diurna e melhora da qualidade de vida.

Quem pode se beneficiar

A tirzepatida pode ser considerada para adultos com obesidade (IMC ≥ 30 kg/m²) ou sobrepeso (IMC ≥ 27 kg/m²) com comorbidades, incluindo apneia obstrutiva do sono. A indicação deve ser individualizada, considerando o grau da AOS, o uso ou não de CPAP, a presença de outros fatores de risco cardiovascular e a tolerância ao medicamento. Ela não substitui o diagnóstico por polissonografia nem a avaliação por um médico especializado em sono, mas pode ser uma ferramenta poderosa dentro de um plano multidisciplinar.

A importância do acompanhamento

Como toda medicação para emagrecimento, a tirzepatida exige acompanhamento médico regular. A titulação deve ser feita de forma gradual, com ajustes conforme a tolerância gastrointestinal. A manutenção de massa muscular exige aporte proteico adequado e treino de força. E, no caso específico da apneia do sono, é importante reavaliar o IAH periodicamente, pois a melhora clínica pode permitir ajustes no CPAP ou no plano terapêutico geral. A automedicação ou o uso fora de protocolo são inseguros e devem ser evitados.

Conclusão: um novo capítulo no tratamento

A apneia obstrutiva do sono e a obesidade estão profundamente entrelaçadas. Emagrecer de forma sustentável continua sendo uma das melhores estratégias para reduzir a gravidade da AOS, e a tirzepatida, com dados robustos do SURMOUNT-OSA, mostra-se promissora como parte desse arsenal terapêutico. Ainda assim, cada paciente é único: o tratamento ideal combina perda de peso, avaliação do sono, cuidado cardiovascular e mudanças de estilo de vida — sempre sob orientação médica especializada.

Aviso médico: este conteúdo tem caráter informativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento. Sempre procure um endocrinologista para avaliação individualizada.